domingo, 25 de maio de 2014

UMA ANÁLISE SOBRE A AUSÊNCIA DA FIGURA PATERNA NA FAMÍLIA, UTILIZADA COMO UM DOS REQUISITOS PARA INGRESSO NO PROJETO CADETE MIRIM DA ACADEMIA DE POLÍCIA MILITAR “GONÇALVES DIAS” DO MARANHÃO


Minimonografia apresentada à disciplina Ética e Cidadania do Curso em Especialização em Cidadania, Fireitos Humanos e Gestão da Segurança Pública da Universidade Federal do Maranhão.
INTRODUÇÃO

Segundo o psicólogo e psicanalista Rubens de Aguiar Maciel, professor na Universidade de São Paulo (USP) e colaborador do Hospital das Clínicas de São Paulo, considerado um dos poucos especialistas do país na questão da paternidade, argumenta que historicamente em um passado remoto, não se tinha a ideia de que o pai fosse responsável pela fecundação, vez que era conhecimento de que a mãe poderia engravidar pelos espíritos, antepassados ou por tocar em um animal ou em um mineral, de maneira que o pai não tinha a consciência do seu vínculo genético com o filho.
Neste viés, a responsabilidade do pai era quase que nula, o que veio mudar com as transformações onde foi descoberto que a gestação era proveniente de uma união sexual e, desta forma, o pai tinha participação na concepção da criança, passando a existir uma ligação e responsabilidade, estabelecidas a partir daí de maneira mais forte.
Em seus estudos afirma que em épocas longínquas, os grupos sociais eram muito extensos. A criança convivia com uma família extremamente numerosa, muitas vezes, convivia com uma variedade de empregados e funcionários da casa ou das propriedades, onde, portanto, a criança sofria influências dessas inúmeras figuras.
Com as transformações socioeconômicas, os grupos foram se tornando menores, até se reunirem no que hoje conhecemos como família nuclear, constituída por pai, mãe e filhos, e, às vezes, alguns agregados.
Mas é notório que o grupo familiar se tornou muito mais restrito, de maneira que a criança passa a ver o pai, a mãe e os irmãos como figuras de referência, e essas assumem uma importância de maior peso.
É sabido que tempos atrás, a família tipicamente patriarcal era soberana. Bastava ao pai prover autoridade, segurança física e financeira, pronto, seu papel estava sendo perfeitamente cumprido.
Corrobora Stônio Silva de Miranda Júnior do Projeto Yandê do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Maria dos Anjos, trazendo a baila que o papel do pai na sociedade foi modificado, sobretudo nas últimas décadas, pois até o fim do século passado, o pai desempenhava essencialmente uma função educadora. Depois da II Guerra Mundial e em consequência de alterações profundas que surgiram na sociedade ocidental (ambos os pais empregados, família nuclear, dificuldades econômicas) o pai se tornou cada vez mais participativo.
A sociedade atual tem passado por grandes transformações em todos os campos, trazendo mudanças aos comportamentos das pessoas, as quais afetam também a forma de se educar os filhos. Não se pode mais falar hoje, de um modelo de pai, pois muitos são os tipos de estruturas familiares.
De qualquer sorte, Rubens Maciel é enfático ao afirmar que mesmo assim, o pai ficou em segundo plano nas investigações científicas e na sua relação com os filhos, isso porque a presença do pai dentro da família tivesse um papel um pouco mais distante até pouco tempo atrás.
A parte da educação moral e dos cuidados com os filhos sempre ficou mais com a mãe. Por isso, a relação mãe-criança, mãe-bebê era mais intensa e mereceu mais estudos.
Com as transformações econômicas, sociais e dos costumes, o pai hoje participa de uma maneira muito mais intensa passou a conviver no aspecto emocional com seus filhos e com a mulher, por esta razão, o interesse pela figura e função do pai na formação da personalidade da criança começou a crescer.
É no dizer de Eizirik, M. e Bergmann, D. S. que os teóricos como Fishman, Montgomery, Shinn, Svanum, Freud, Rohde, Muza, Ferrari, Mason, Paschall, Pfiffner, Jensen e outros sedimentaram que a função paterna é fundamental para o desenvolvimento do bebê, da criança e do adolescente e a presença de ambos os pais é que permite à criança viver de forma mais natural.
Em síntese, a literatura por estes consultada evidencia as modificações na estrutura da família contemporânea, os efeitos negativos da ausência do pai e as repercussões decorrentes dessa ausência tanto nos aspectos comportamentais quanto nas vivências emocionais relacionadas com o complexo de Édipo, produzindo variadas expressões de conflitos, defesas e sentimentos de culpa nos filhos sem pai.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1   A PRESENÇA PATERNA

A relevância da figura paterna se dá a partir do momento em que os pais recebem a noticia da gravidez, uma vez que ao ter a consciência deste novo papel, em seu imaginário o homem cria fantasias e expectativas a cerca de seu filho, dando um lugar para ele no seio familiar, uma vez que ao primeiro contato com a notícia da gravidez, grande parte dos homens entra em um estado regressivo, revivendo a relação com a figura paterna, segundo Amarins, M. B., psicóloga do Einstein.
Pois, a presença de uma figura paterna – que não necessariamente precisa ser o pai biológico, mas alguém que exerça esta função dentro da família – numa fase precoce da infância é fundamental para a estruturação do psiquismo do individuo, pois promove uma identificação alternativa, não tendo somente como referencia a relação com a mãe. Este fato contribui para a introdução da criança no mundo das diferenças, nos âmbitos social e sexual.
Continua Amarins, M. B., que a adolescência é um momento da vida muito turbulento, no qual testar e buscar limites faz parte do processo individual de entender o seu lugar no mundo, deixando para trás sonhos de criança e se defrontando com a realidade e com as responsabilidades do mundo adulto. Neste momento começam a aparecer os diversos conflitos com os pais. E é aí que a figura masculina, que representa a Lei e os limites, tem uma valiosa chance de transmitir bons valores e normas sociais por meio da educação.
Para Benczik, E. B. P., doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, as teorias psicológicas e as pesquisas científicas afirmam e fundamentam o papel da figura paterna no desenvolvimento e no psiquismo infantil.
É pressuposto da teoria psicanalítica o papel estruturante do pai, a partir da instauração do complexo de Édipo. Na trama familiar, o sujeito se constrói e sai do estado de natureza para ingressar na cultura.
Assevera ainda que para Aberastury, o pai representa a possibilidade do equilíbrio pensado como regulador da capacidade da criança investir no mundo real. A necessidade da figura paterna no processo de desenvolvimento infantil ocorre entre seis e doze meses, quando a criança se vê inserida no triângulo edípico, denominado organização genital precoce, e, na adolescência, quando a maturação genital obriga a criança a definir seu papel na procriação, havendo um movimento mais intenso na adolescência para que o filho alcance maior autonomia.
A representação da figura paterna é essencial para o desenvolvimento moral, social, emocional e psicológico da criança, porque continua a representar a autoridade, a lei, a impor os limites, disciplinando a criança. A criança conta com a presença do pai para ajudá-la a separar-se da ligação primária com a mãe, de modo a explorar e descobrir o mundo e as relações, tornando-se mais autónoma e independente.

2.2   AUSÊNCIA DA FIGURA PATERNA

Amarins, M. B. diz que se houver ausência desta figura ou uma relação não saudável, podem gerar inseguranças, questionamentos e introspecção com relação ao nascimento e a este novo papel que o indivíduo terá que assumir, podendo ainda acarretar no futuro, dificuldades de adaptação às regras sociais, bem como nas relações interpessoais e identificação sexual.
A ausência do pai pode trazer conseqüências psicológicas ao adolescente. Se a ausência é definitiva, no caso de morte ou porque o pai não assumiu a paternidade, psicólogos são unânimes em enfatizar de há que ser trabalhado o contexto com a criança desde cedo repassando a ela, na linguagem apropriada para a idade, o que aconteceu e como o restante da família enxerga a situação, procurando minimizar o sentimento de rejeição. Os filhos necessitam, em qualquer condição, de apoio, carinho, proteção, companhia, cuidados e limite.
É fundamental o papel do pai no desenvolvimento da auto-estima dos filhos, pois é nele que desenvolvemos noções de limite, influenciando questões relacionadas ao ajustamento e às mais variadas situações.
Muitas vezes a criança que é criada sem referencial masculino pode se tornar aversiva às ordens dadas por representantes femininos e outras figuras de autoridade.
O modelo masculino se faz essencial na formação da personalidade da criança e do adolescente, necessitando de uma figura de referência e de valores que possa criar um vínculo de afeto e estabelecer parâmetros de comportamento à criança.
Embora como já foi afirmado acima que não necessariamente o pai biológico, mas outra figura masculina que dê este suporte, como um avô, um tio, o padrasto, por exemplo. É o caso de muitas mães que criam seus filhos longe deste pai biológico e que, no entanto, são crianças e adolescentes saudáveis por terem encontrado um outro modelo de referência.
Por ser a adolescência uma fase caracterizada pela transição em vários domínios do desenvolvimento, seja biológico, cognitivo ou social; por conflitos internos e lutos que exigem do adolescente a elaboração e a ressignificação de sua identidade, imagem corporal, relação com a família e com a sociedade.
À luz dos estudos do psicanalista Jacques Lacan, conforme Abdon, G., podemos pensar o filho enquanto “fruto da metáfora do casal”, entretanto, a figura da mãe, importante em todas as linhas de pensamento psicanalítico é, sem dúvida, a figura crucial do processo de humanização do bebê, pois assevera Lacan que ela é o “outro primordial”, pois é indiscutível que a criança cria o mundo a partir de sua relação com a mãe, sendo fruto de projeções e identificações.
Desta forma segundo Abdon, G., Lacan refere-se à mãe como “outro primordial” no sentido de que ela ocupa primordialmente o lugar do grande Outro.

2.3   MAL NECESSÁRIO

A presença do pai, bem como a carência em relação ao mesmo, segundo a visão de Lacan, não está necessariamente ligada a sua presença ou ausência física, sendo função simbólica. Poderíamos enfatizar dizendo que o maior papel do pai está no desejo da mãe, ou seja, o desejo materno destinado a um homem que ocupa o lugar do pai. Poderíamos acrescentar que o pai é como um suporte para a mãe. Segundo Miller (apud Faria, 2003, p. 153) “o desejo da mãe deve se dirigir para um homem e ser atraído por ele”.
Para Abdon, G. (apud Ceccarelli, 2002), a existência de algo que separa e mãe e o filho é condição fundamental para a constituição do sujeito. No entanto, dar a isto o nome de “função paterna” é ainda um reflexo do patriarcado que vivemos, existindo ainda a necessidade de que esse papel seja cumprido pelo homem.
Pois para Lacan, a família é um mal necessário uma vez que a condição humana é prematura; o homem nasce prematuro, incapaz de se desenvolver só, sem o outro. Portanto, ao mesmo tempo em que o sujeito surge de uma demanda da família, a família também existe enquanto demanda do sujeito, uma vez que é ele que a “alimenta” e a mantém viva.

2.4   DELIQUÊNCIA JUVENIL

A odificação da estrutura familiar atual, onde crescer numa família sem o pai está cada vez mais comum e este fato, de acordo com algumas teorias, está diretamente relacionado com delinqüência-juvenil.
A afetividade no comportamento do adolescente em conflito com a lei está relacionada principalmente com as características da interação familiar. Os pais em geral não são contingentes no uso de reforçadores positivos para iniciativas pró-sociais (Dumas & Wahler, 1985) e fracassam no uso afetivo de técnicas disciplinares para enfraquecer os comportamentos desviantes.
Além disso, essas famílias são caracterizadas por uma disciplina severa (Pettit, Bates & Dodge, 1997; Rothbaum & Weiz, 1994) e inconsistente, pouco ou nenhum envolvimento parental quando se depara com lares em que o pai é ausente e quando presente se observa pouco monitoramento e supervisão do comportamento do adolescente (Loeber & Dishion, 1983).
Freud, em seu trabalho Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância, diz: "na maioria dos seres humanos, tanto hoje como nos tempos primitivos, a necessidade de se apoiar numa autoridade de qualquer espécie é tão imperativa que seu mundo desmorona se essa autoridade é ameaçada".
As crianças que não convivem com o pai acabam tendo problemas de identificação sexual, dificuldades de reconhecer limites e de aprender regras de convivência social. Isso mostraria a dificuldade de internalização de um pai simbólico, capaz de representar a instância moral do indivíduo, tal falta pode se manifestar de diversas maneiras, entre elas uma maior propensão para desenvolvimento da delinquência. (Stônio Silva de Miranda Júnior, Projeto Yandê – Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Maria dos Anjos)

3. CONCLUSÃO

Diante de vastos posicionamentos dando conta das transformações em que a sociedade vem experimentando e os estudos científicos desenvolvidos em relação a figura paterna, tem propiciado e verificado-se uma cristalina mudança comportamental, uma participação mais efetiva e uma atuação mais profícua.
A divisão das tarefas domésticas e os afazeres relacionados às crianças, desde o acompanhamento escolar, relativos à saúde e ao lazer tem mostrado a fundamental importância que tem o pai, quanto à mãe, na vida de seus filhos e com certeza lhes proporcionado um bom desenvolvimento socioemocional, complementando e reforçando os papéis de autoridade (impondo regras e punições) e os afetos (fornecendo carinhos e recompensas).
Neste contexto, a educação, para ser equilibrada, necessita dos dois progenitores, uma vez que a presença paterna na família é diferente e complementa à materna.
Assim, a falta de um dos modelos na educação, masculino ou feminino, implica quase sempre um desequilíbrio na educação do filho.
Pois é certo que a exploração do mundo pelas crianças para ser facilitada e o relacionamento com os outros, ganhar consistência é de fundamental importância o apoio e o direcionamento correto quando do seu processo educacional.
Por outro lado, a ausência do pai ou de uma figura que o substitua trará marcas indeléveis em seu processo formativo, pois é observável que os filhos necessitam de apoio e segurança e de valores que naturalmente cabe ao pai transmitir, vez que os jovens procuram no seu pai um modelo com o qual possam se identificar.
Assim se o pai está ausente, outros modelos virão ocupar esse vazio, com grande probabilidade de não serem modelos propriamente exemplares.
Entretanto, se os pais participarem e definirem em conjunto como querem educar seus filhos poderão reforçar os seus papéis e propiciar aos seus filhos um modelo de crescimento saudável e harmonioso, com todas as condições para que o estes sejam lançados na vida adulta, de forma mais estruturada e feliz.

Carlos Augusto Furtado Moreira

REFERÊNCIAS

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BENCZIK, E. B. P. A importância da figura paterna para o desenvolvimento infantil. Rev. Psicopedagogia. São Paulo, v. 28, n. 85,  2011. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84862011000100007>. Acesso em: 02 mar. 2014.
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EIZIRIK, M.; BERGMANN, D. S. A ausência da figura paterna e sua repercussão no desenvolvimento comportamental do adolescente em conflito com a lei. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul, v. 26, n. 3, set./dez: 2004. Disponível em: <http://www.cdca-ro.org.br/default.asp?id=288&mnu=286>. Acesso em: 02 mar. 2014.
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MACIEL, R. A. A falta do pai é sempre prejudicial. Entrevista. Disponível em: < http://www.nossofuturoroubado.com.br/arquivos/maio_10/falta.html>. Acesso em: 02 mar. 2014.
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